sábado, 1 de dezembro de 2012

Livros sobre Vieira

Um dos conjuntos de ensaios mais importantes sobre Padre António Vieira:




a edição original




António José Saraiva


a reedição





Sermões

     


     O sermão faz parte da missa e deve ser proferido logo após o evangelho. Dessa maneira fica explicada a impossibilidade de, ao menos em um primeiro momento, não seguir os assuntos específicos à data litúrgica do culto:
 
       (...) Si ha de aver Sermon, ha de ser acabado el Envangelio...El celebrante, y los Diaconos se iràn `a sentar mientras el Sermon y se cubriran, si el Santíssimo no està patente: el Predicador descubrirá la cabeza, si nombrare el nombre de Jesus, ò de Maria Santíssima, ò del Santo quese celebra...

(Bartolomé, 1726)
     

     Dada a circunstância na qual o sermão devia ser proferido, não é de se admirar que os sermões pregados nas domingas do Advento tenham como ponto de partida trechos das passagens bíblicas determinadas pela Igreja para celebrar as datas: para o primeiro domingo, S.Lucas XXI, para o segundo, S. Mateus XI e para o terceiro, S.João I.

     Percebe-se daí que o primeiro constrangimento do sermão sacro, enquanto universo de discurso, está na obediência aos lugares específicos. O segundo, está na maneira correta de se interpretar a escritura, lembremo-nos de que o pregador que não seguisse a interpretação “oficial” poderia ser acusado por blasfêmia, pois não obedecer às regras de interpretação teológica era corromper a palavra divina. A interpretação teológica devia pautar-se no simbolismo evangélico e objetivar a correta decifração da verdade da escritura.

     O simbolismo evangélico acompanha os lugares específicos aos assuntos de que trata o orador sacro e consiste em utilizar cenas do antigo testamento como metáforas para que o novo testamento fosse entendido de maneira conveniente. 

     Vale frisar que um dos primeiros objetos de estudo do aspirante à ordem jesuítica está relacionado ao aprendizado desta maneira de raciocinar e conhecer a doutrina por meio de exercícios espirituais e disputas de oratória. Eram objeto de disputas e de inspiração dos exercícios os sacramentos da Igreja, os mistérios de Cristo, o apocalipse, a figura de Maria e toda a temática referente à conversão.
 
     Na época da Contra-Reforma, o pregador tinha por função interpretar o que estava na Bíblia. Interpretar textos bíblicos significava, então, explicitar sentidos que estavam ocultos na escritura. Segundo esta concepção, as personagens bíblicas e os feitos ocorridos funcionavam como figuras cujo desvendamento só o orador sacro, representante da Igreja, estava autorizado a fazer. Por ser um representante de Deus, atribuía-se ao orador o papel de conselheiro espiritual que tinha por obrigação moral alertar para as conseqüências de atos e sentimentos pecaminosos, orientando à vida venturosa que levaria os fiéis ao reino de Deus.

     Haja vista as responsabilidades imputadas ao orador, é possível imaginar a relação que havia entre Vieira e seu auditório: este esperava que o sentido do texto bíblico fosse desvendado; aquele construía um ethos (imagem forjada pelo orador por meio de seu discurso) de quem tem autoridade e sabedoria para convencer o auditório de que a interpretação correspondia ao sentido verdadeiro do texto bíblico. 

     Uma vez desvendado o sentido dos textos bíblicos, o orador poderia comparar o prescrito pelo sagrado aos fatos mundanos e fazer juízos de valor, aconselhando o que está de acordo com as leis divinas.

     Com base nas informações que temos sobre o universo de discurso sacro, é possível imaginar seu sistema de enunciação típico. Para cada data do calendário litúrgico, há um tema e uma passagem bíblica pré-determinadas. A missa se organiza ao redor delas. Proferido o evangelho, o orador sacro começa a proferir seu discurso cujo ponto de partida é uma parte da citação anterior.

     Esperava-se que seu discurso descobrisse o sentido oculto da escritura. Havia também, por parte do auditório, a expectativa de que o orador se valeria de imagens, de processos metafóricos, de lugares específicos ao assunto de lugares gerais e outros artifícios postulados pela Retórica Antiga. Feita a interpretação bíblica, a parte dedicada à crítica e à censura dos fiéis finalizaria o sermão.

Márcia Sipavicius Seide, O Sermão do Mandato, análise literária e adequação histórica

São Luís do Maranhão











Sermões


Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província.

Sermão do Bom Ladrão

Livros sobre Vieira


 ANTÔNIO VIEIRA - Jesuíta do rei

O historiador Ronaldo Vainfas, especialista em história do Brasil colonial, reconstitui os momentos mais importantes da vida e da obra do autor com criteriosa atenção à intrincada política da época.

Presença de Vieira

em Botafogo
Rio de Janeiro, Brasil

Presença de Vieira


em
Lisboa

Edições de Padre António Vieira


A mais recente edição completa dos Sermões, de Padre António Vieira (2008)

edição filológica do  
em colaboração com a Imprensa Nacional - Casa da Moeda
Uma edição coordenada pelo Prof. Dr. Arnaldo do Espírito Santo

Presença de Vieira

Um Centro Universitário dinamizado pelos Jesuítas em Portugal

Livros sobre Vieira


Actas do Congresso Internacional
do Terceiro Centenário da Morte
de
Padre António Vieira

Cinema sobre Vieira


Sermões
 A História de António Vieira

filme brasileiro de Júlio Bressane
1990
sobre a vida 
de
Padre António Vieira

Presença de Vieira








Um colégio jesuíta no Brasil 
com o nome 
de 
Padre António Vieira

Sobre Vieira








Um artigo de Guilherme d'Oliveira Martins publicado no nº 36 da Revista Nova Cidadania, em 2008

Os Combates do Padre António Vieira





Comemorar o padre António Vieira significa invocar a memória de alguém que combateu pela liberdade e pela dignidade humana com todas as suas forças e para além daquilo que o seu tempo ajuizava. E é impressionante, à distância, nos dias de hoje, verificar como o pensamento do orador sagrado e do diplomata, apesar de marcado pelo tempo, pode ser compreendido por nós, quatro séculos depois…

Muito se tem dito sobre o Padre António Vieira e ressalta sempre a sua qualidade única de «Imperador da Língua Portuguesa», segundo a expressão do exigente Fernando Pessoa, que nunca regateou elogios à força extraordinária de alguém que foi muitíssimo mais do que um pregador («No imenso espaço seu de meditar,/ Constelado de forma e de visão…»). Com o Padre Vieira, estamos perante a maturidade da língua portuguesa em prosa, cuja leitura nos dias de hoje continua a encher-nos de emoção. Foi um visionário, um diplomata, um pregador da Capela Real, um conselheiro avisado, um humanista, um lutador pelo respeito da dignidade humana, à frente do seu tempo, e um artífice, como houve muito poucos, da palavra dita e escrita. Sente-se, em cada expressão, em cada ideia, a força mágica dos encadeamentos, das repetições, das sinonímias, das contradições, dos paradoxos, das metáforas, dos símbolos, dos conceitos, do ponto e do contraponto, da proximidade e da distância (leia-se o imprescindível A Oratória Barroca de Vieira, de Margarida Vieira Mendes, Caminho, 2003).

Vieira não se resume, nem se limita ao culto de palavras e de ideias, por detrás desse jogo aparente está uma corajosa defesa de ideias e de causas, que, pela sua determinação e persistência, lhe foram causando os maiores dissabores e os piores contratempos. A sua obra «é inquestionavelmente uma das manifestações mais altas da capacidade criadora do espírito lusíada, na qual estranhamente se fundem o sonho e a realidade…», no dizer de Aníbal Pinto de Castro (António Vieira, Uma Síntese do Barroco Luso-Brasileiro, 1997). E é preciso ter uma força muito especial para poder manter-se actual quatro séculos depois do seu nascimento. E se digo actual, uso a palavra com o cuidado devido: não significa que possamos repetir agora o que foi dito por ele no século XVII, quer antes dizer que podemos hoje compreender, ressalvadas as distâncias de tempo e mentalidades, o que visava o padre, o orador ou o conselheiro. E percebemos bem que o que dizia e o que pensava estava muito à frente do que entendiam os seus contemporâneos (cf. João Lúcio de Azevedo, História de António Vieira, Lisboa, 1918-1920).

O Padre Vieira foi um homem que procurou sempre pautar-se pela antecipação e pelo critério do futuro, demandando respostas para um transe muito difícil vivido na sua época pelos portugueses (recuperação da independência, fragilidade do novo poder, acumulação de ameaças externas no contexto da Guerra dos 30 Anos). Como pregador precisava de seduzir e de mobilizar vontades, quando a sociedade estava dividida e perplexa. O império temporal vinha-se esboroando, num processo longo que vinha do último quartel do século XVI. As riquezas perdiam-se ou dissipavam-se, os «fumos da Índia» avolumavam-se, havia divisões profundas (bem evidentes na crise dinástica que Vieira sentiu directamente, sobretudo depois do desaparecimento de D. João IV).

Havia, por isso, que reconstruir o império em moldes totalmente diferentes, que não padecessem das enfermidades antigas. E um império consistente, teria de ser espiritual, para ser motivador e tentar combater os males da corrupção do poder e do dinheiro. E vinha à baila a antiga ideia judaica de «povo eleito» à exigência moderna de encontro e de reconhecimento das diferenças. Eis por que razão a espiritualidade de Vieira procura ser aberta aos outros e ao futuro. E no entanto nota-se o risco, que mais tarde se revelará (na história das «reduções jesuíticas», por exemplo), de um choque de projectos políticos, o do reino e o da companhia. Esse risco sente-o o próprio Vieira, ora por incompreensão política e pelo sobe e desce dos poderes, ora por ameaça dos interesses e por falta de meios para agir.

Hoje diríamos que havia uma estratégia segundo a qual seria necessário compatibilizar o humanismo universalista e uma nova ideia de império. E o Padre António Vieira retoma então o que os franciscanos espirituais (ou antes deles os joaquimitas) há muito defendiam, também sob a invocação do Espírito Santo. E falando de audácia e atrevimento, basta lembrar o poderoso «Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda», dito na Igreja baiana de Nossa Senhora da Ajuda, em Maio ou Junho de 1640 («arrependei-vos misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos da vossa piedade, ide à mão da vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas da vossa ira, e não permitais tantos danos e tão irreparáveis»). Mas os exemplos multiplicam-se, com especial subtileza.

O jesuíta atraiu e acumulou ódios, que juraram pela sua pele, primeiro entre os colonos brasileiros, depois na Corte, entre os invejosos do lugar proeminente que assumiu junto de D. João IV, alvitrando, aconselhando e agindo, e ainda na Inquisição, pela qual foi perseguido, julgado, preso e, por fim, perdoado apenas graças à intercessão papal… Leia-se o Sermão da Dominga Vigésima Segunda depois do Pentecostes (1649), onde, partindo de S. Mateus («É lícito ou não pagar o imposto a César?», 22,17), verbera a hipocrisia dos fariseus, ataca o fanatismo cego e sem caridade, e lembra os escrúpulos falsos de Pilatos, sempre a pensar nos inquisidores: «Ó julgadores que caminhais para lá com as almas envoltas em tantos e tão graves escrúpulos de fazendas, de vidas, de honras, e cuidais cegos, e estúpidos, que essas mãos com que escreveis as tenções e com que firmais as sentenças, se podem lavar com uma pouca de água. Não há água que tenha tal virtude».

Nunca fugiu das dificuldades nem da denúncia dos erros e atropelos, como se vê bem no Sermão do 5º Domingo da Quaresma, dito no Maranhão: «E se as letras deste abecedário se repartissem pelos Estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida que o M. M Maranhão, M murmurar, M motejar, M maldizer, M malsinar, M mexericar, e sobretudo M mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente…». Os Sermões de Santo António aos Peixes, dito ainda no Maranhão, da 3ª Dominga da Quaresma e da Sexagésima, pregados na Capela Real, e do Bom Ladrão, apresentado na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), de 1654 e 1655, são bem ilustrativos da coragem acusatória de Vieira contra abusos e injustiças: «Encomendou el-Rei D. João o Terceiro a S. Francisco Xavier o informasse do estado da Índia, por via de seu companheiro, que era mestre do Príncipe; e o que o santo escreveu de lá, sem nomear ofícios, nem pessoas, foi que o verbo rapio na Índia se conjugava em todos dos modos…».

Com a Guerra dos 30 Anos a finar-se, havia que preparar um alinhamento que permitisse uma presença segura de Portugal na nova balança europeia. Tudo iria mudar nas legitimidades e no modo de organizar os Estados. Vieira, entre o sonho e a realidade, propõe um novo modo de agir. E a justificação espiritual (que a Inquisição considerou heresia) poderia abrir novos horizontes, sobretudo através da criação de bases sólidas no Brasil e na Índia. A legitimidade da força tinha de ceder perante a legitimidade do espírito.

Assim, o Quinto Império não era um sonho desligado da realidade nem uma ilusão centrada no território da loucura, era uma tentativa de regresso à epopeia de quinhentos, com um repensamento estratégico, que tirasse lições dos erros cometidos. Daí o recurso à imagem do livro de Daniel da estátua que «tinha a cabeça de ouro fino, o peito e os braços de prata, o ventre e as ancas de bronze, as pernas de ferro, os pés metade de ferro e metade de barro» (Dan. 2,32) e ao prenúncio de um quinto império (frágil e forte, como o ferro e a argila), que jamais seria destruído. Assim foi concebida a História do Futuro, antecipada pelo Sermão dos Bons Anos (1.1.1642), onde as Escrituras, as profecias de S. Frei Gil de Santarém e as Trovas do Bandarra levaram-no a transferir o mito do Desejado de um rei morto em Alcácer-Quibir (Sebastião) para um rei vivo (João, ali presente na Capela Real). Seria nesse império que se reuniriam todos os povos sob a égide do Vigário de Cristo e sob um mesmo governo temporal do Rei de Portugal…

Iconografia de Padre António Vieira


Selo comemorativo
dos
400 anos do nascimento
de
Padre António Vieira

Iconografia de Padre António Vieira


Livros sobre Vieira


O Drama e Glória do Padre António Vieira
 1952

Um romance/ensaio sobre a vida de Vieira
de
Mário Domingues

Iconografia de Padre António Vieira



Cartaz de um Colóquio
sobre
Padre António Vieira (2008)

Sermões





Sermão de Santo António aos Peixes
dito por 
José Carlos Ary dos Santos



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Contemporâneos de Vieira





Gregório de Matos (1636-1695), poeta contemporâneo de Padre António Vieira, conhecido por  boca do inferno pela sua ousadia ao criticar a Igreja Católica, muitas vezes ofendendo padres e freiras.

 
Tristes sucessos, casos lastimosos,
Desgraças nunca vistas, nem faladas.
São, ó Bahia, vésperas choradas
De outros que estão por vir estranhos
Sentimo-nos confusos e teimosos
Pois não damos remédios as já passadas,
Nem prevemos tampouco as esperadas
Como que estamos delas desejosos.
Levou-me o dinheiro, a má fortuna,
Ficamos sem tostão, real nem branca,
macutas, correão, nevelão, molhos:
Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
E é que quem o dinheiro nos arranca,
Nos arrancam as mãos, a língua, os olhos.

 
Conselhos a qualquer tolo 
para parecer fidalgo, rico e discreto
Bote a sua casaca de veludo,
E seja capitão sequer dois dias,   
Converse à porta de Domingos Dias,   
Que pega fidalguia mais que tudo.   

Seja um magano, um pícaro, um cornudo,
Vá a palácio, e após das cortesias   
Perca quanto ganhar nas mercancias,
E em que perca o alheio, esteja mudo.   

Sempre se ande na caça e montaria,   
Dê nova solução, novo epíteto
E diga-o, sem propósito, à porfia;   

Quem em dizendo: "facção, pretexto, efecto".
Será no entendimento da Bahia
Mui fidalgo, mui rico, e mui discreto.

Livros sobre Padre António Vieira



A Oratória Barroca de Vieira, de Margarida Vieira Mendes
o estudo mais completo da obra oratória de Vieira


Da mesma estudiosa, uma edição comentada de alguns sermões:


Índios do Brasil



Índios do Brasil, Quem São Eles?
o preconceito e a ignorância continuam ainda hoje

Vieira profeta


 O Quinto Império


“Vio Nabucodonosor aquella prodigiosa estatua, que representava os quatro Impérios dos Assírios, dos Persas, dos Gregos e dos Romanos; o corpo estala descuidado, com os sentidos presos, & a alma andava cuidadosa, levantando, derrubando estatuas, fantasiando Reynos, Monarquias. Mais fazia Nabucodonosor dormindo, que acordado: porque acordado cuidava no governo de hũ Reyno, dormindo imaginava na sucessão de quatro. Pois se Nabuco era Rey dos Assírios, quem o metia com o Império dos Persas, com o dos Gregos, com o dos Romanos? Quem? A obrigação do officio que tinha. Era Rey, quem quer conseruar o Reyno próprio hade sonhar com os estranhos."
 
VIEIRA, Serman do Esposo da May De Deos S. Joseph

A referência ao Quinto Império surge na Bíblia e torna-se mito nas interpretações que sucederam ao longo dos tempos. Em Portugal, Bandarra (1500?-1556), Padre António Vieira (1608-1697) e Fernando Pessoa (1888-1935) reformulam o mito.

De acordo com a Bíblia, Nabucodonosor, rei da Babilónia (604-562 a.C.), queria que os sábios lhe revelassem o sonho que tivera e a sua interpretação. O sonho envolvia uma enorme estátua com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e ancas de bronze, pernas de ferro e pés de barro, à qual uma grande pedra, que se desprendeu da montanha, triturou os pés, fazendo tudo em pedaços. Foi o profeta Daniel que lho revelou e decifrou, mostrando-lhe que o nascimento e a queda de impérios acontecem pela vontade de Deus, embora pareça dos homens essa missão. Diz Daniel (2:37-44): "Tu que és o rei dos reis, a quem o Deus dos céus deu a realeza, o poder, a força e a glória; a quem entregou o domínio, onde quer que eles habitem, sobre os homens, os animais terrestres e as aves do céu, tu é que és a cabeça de ouro. Depois de ti surgirá um outro reino, menor que o teu; depois um terceiro reino, o de bronze, que dominará sobre toda a terra. Um quarto reino será forte como o ferro" e, mais à frente, "No tempo destes reis, o Deus dos céus fará aparecer um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo". Daniel profetizou que depois da grandiosidade do império da Babilónia, sucederiam outros, que de acordo com as interpretações mais correntes são o Medo-Persa, o da Grécia e o de Roma, sendo o Quinto Império universal.

Padre António Vieira, ao desenvolver o mito do Quinto Império, considera que, depois desses grandes impérios liderados por Nabucodonosor (da Babilónia ou dos Assírios), por Ciro (da Pérsia), por Péricles (da Grécia) e por César (de Roma), chegará o Império Universal Cristão, o Quinto Império, liderado pelo Rei de Portugal. Diz Vieira em História do Futuro: "Chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História; o qual se há de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego, o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio".

Fernando Pessoa, na obra Mensagem, anuncia um novo império civilizacional, que, como Vieira, acredita ser o português. O "intenso sofrimento patriótico" leva-o a antever um império que se encontra para além do material.

(...)
Grécia, Roma, Cristandade, 
Europa – os quatro se vão 
Para onde vai toda idade. 
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Pessoa, Mensagem
 
 Para o Poeta, "A esperança do Quinto Império, tal qual em Portugal a sonhamos e concebemos, não se ajusta, por natureza, ao que a tradição figura como o sentido da interpretação dada por Daniel ao sonho de Nabucodonosor. Nessa figuração tradicional, é este o seguimento dos Impérios: o Primeiro é o da Babilónia, o Segundo o Medo-Persa, o Terceiro o da Grécia e o Quarto o de Roma, ficando o Quinto, como sempre, duvidoso. Nesse esquema, porém, que é de impérios materiais, o último é plausivelmente entendido como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele país; e creio que, nesse nível, se interpreta bem. Não é assim no esquema português. Esse, sendo espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do Império material de Babilónia, parte, antes, com a civilização que vivemos, do Império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos. E, sendo esse o Primeiro Império, o Segundo é o de Roma. O Terceiro o da Cristandade, e o Quarto o da Europa – isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá de ser outro que o inglês, porque terá de ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal, para quem o esperamos." (Textos transcritos por António Quadros, em Fernando Pessoa, Iniciação Global à Obra)
 

A crença no Quinto Império persegue Fernando Pessoa, como se vê pela entrevista a Alves Martins (1897-1929) em Revista Portuguesa, nº 23-24, de 13 de outubro de 1923, onde à questão sobre o que calcula que seja o futuro da raça portuguesa, responde: "O Quinto Império. O futuro de Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo."
 
Desde o tempo das descobertas, com o conhecimento de novos mundos, que colocaram Portugal como referência obrigatória, sempre houve uma crença de perenidade e de uma missão civilizadora. Daí Fernando Pessoa, como o fizera Vieira, procurar atestar a sua grandiosidade e o valor simbólico do seu papel na civilização ocidental, acreditando no mito do Quinto Império. Ao longo da Mensagem, sobretudo da terceira parte, Pessoa exprime a sua conceção messiânica da história e sente-se investido no cargo de anunciador do Quinto Império, que não precisa de ser material, mas civilizacional.





NON




Terrível palavra é o NON. Não tem direito nem avesso: por qualquer lado que o tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é NON. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz, que fugia dela porque o não mordesse, disse-lhe Deus que a tomasse ao revés, e logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha. O NON não é assim: por qualquer parte que o tomeis sempre é serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança que é o último remédio que deixou a natureza a todos os males. Não há correctivo que o modere nem arte que o abrande, nem lisonja que o adoce. Por mais que o enfeiteis, um NÃO sempre amarga; por mais que o enfeiteis, sempre é feio; por mais que o doireis, sempre é ferro.

NON, Terrível palavra é o NON

Sobre Vieira






                                                      António Vieira

                                                      O céu estrela  o azul e tem grandeza.

                                                      Este, que teve a fama e a gloria tem,
                                                      Imperador da língua portuguesa,
                                                      Foi-nos um céu

                                                      No imenso espaço seu de meditar,
                                                      Constelado de forma e de visão,
                                                      Surge, prenúncio claro do luar,
                                                      El-Rei D. Sebastião.

                                                      Mas não, não é luar: é luz do etéreo.

                                                      É um dia; e, no céu amplo de desejo,
                                                      A madrugada irreal do Quinto Império
                                                      Doira as margens do Tejo.

                                                      Fernando Pessoa,
Mensagem